Admirava muito aquela velha árvore que cresceu junto ao muro de pedra aos fundos da casa de meus pais. Era uma árvore enorme com cinco galhos, dois dos quais eram escaláveis para um novato como eu. Em um dia aparentemente favorável, comemorei muito ao conseguir escalar o galho mais baixo, pois estava com uma vista privilegiada para assistir ao tráfego. (Eu era um precursor do Community Watch Program[1]). Eram aproximadamente três metros de escalada a partir do pé do tronco da árvore, até chegar ao galho. Com meus pés seguros, eu poderia agarrar-me ao galho seco à minha direita para equilibrar meu corpo ligeiramente instável.

Uma desvantagem do ponto de vista do vigilante comunitário, era o fato de que o galho da árvore parecia tão alto como o prédio Empire State (pelo menos para um garoto de doze anos de idade com medo de altura). Ainda posso fechar os olhos e imaginar a árvore nitidamente mesmo após se passarem 30 anos, lembrança essa, provavelmente por conta do que aconteceu em seguida. Enquanto observava a camionete de nosso vizinho subindo a estrada, ouvi um estalo do galho sobre o qual eu estava, senti meu corpo balançar para a frente e repentinamente eu estava em queda livre indo em direção ao muro de pedra. Senti um vento impetuoso, aos gritos de terror, então, surpreendentemente aterrissei com meus pés no chão. Nada menos que um milagre ou, como meu irmão mais tarde apontou, talvez eu não estava tão longe do solo como  imaginava.

No último artigo que escrevi, paramos “à beira do precipício de Apocalipse 2:5”, onde Jesus diretamente disse à igreja de Éfeso: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e pratica as primeiras obras”. Estas palavras de Jesus parecem soar de modo particular à experiência de escalada e queda que tive na árvore. Posso lembrar com clareza de onde  caí. Vem à lembrança o fato de ter me considerado culpado por confiar que o galho seco sustentaria meu corpo, entretanto, voltei a praticar arvorismo com o cuidado e precaução necessários, depois de minha queda e arrependimento.  

Mas, qual é o conselho na carta á igreja de Éfeso? De que a igreja deveria ter lembrança arrependimento, e qual atitude deveria tomar em resposta às palavras de Cristo registradas em Apocalipse 2:5? Talvez algo escrito na carta de Paulo aos Efésios, nos traga uma resposta quanto a isso. A carta aos Efésios, provavelmente foi uma carta circular enviada a um número de igrejas da área circunvizinha de Éfeso, certamente considerando a igreja de Éfeso como principal destinatário, sem ignorar as demais igrejas ou comunidades. Algo parecido com algumas postagens contemporâneas do Facebook, destinadas a um público específico, mas que o mundo é convidado a olhar. Se pensarmos que o livro de Apocalípse foi escrito em torno do ano de 95 d.C.,  e o livro de Efésios em torno do ano 62 d.C., podemos imaginar Jesus dizendo: “Olá Efésios, lembram como era há 30 anos? Lembram quando meu servo Paulo escreveu: “Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, não cesso de dar graças a Deus por vós, …”.

Tenhamos em mente o fato de que em Apocalipse 2:5, Jesus ordena que haja lembrança de onde ocorreu a queda. A declaração de Paulo na carta aos Efésios, é realmente um alto lugar do qual todos estão sujeitos a cair. Talvez você possa refletir sobre um período em que seu amor e fé em Jesus, e seu amor ao próximo eram mais fortes. Esse sentimento pode muito bem ser interpretado como o primeiro amor que, em referência às palavras de Jesus, foi abandonado pela igreja de Éfeso. Se o lugar de onde a igreja de Éfeso caiu está identificado, precisamos perguntar: quais são as primeiras obras? (Haja vista, a necessidade da exteriorização daquilo que está em nosso interior).

O que eles deveriam voltar a praticar? Em Efésios capítulo um, temos a informação sobre aquilo que uma igreja atuante faz como resultado de amor e fé. Conforme discorremos o primeiro capítulo da carta, vemos emergir um processo que tem sido abordado por Thom Rainer em sua série de vídeos sobre o processo de“Revitalização da Igreja” que fornece uma lente às igrejas, ao questionar o que elas estão fazendo, por que elas estão fazendo e para quem estão fazendo? Este processo também serve como espinha dorsal para o Pulsar da Igreja Batista do Sétimo Dia no processo de Revitalização..

Em um único parágrafo a palavra "processo", foram usadas quatro vezes. Podemos considerá-la como palavra chave. Os versos 18 e 19 do primeiro capítulo, apresentam uma imagem clara de uma igreja espiritualmente saudável, como um processo, e não uma eventualidade. Os quatro fatos descritos nestes versículos não ocorrem em um único evento, mas são ações em curso. Essas ações são parte do ciclo de vida da Igreja ao longo do tempo. São elas: clareza, movimento, alinhamento e foco.

Clareza

A oração de Paulo, inclui um pedido de esclarecimento. Especificamente, o apóstolo pede que a igreja tenha "os olhos do coração iluminados" (Efésios 1:18). Tente imaginar e responder:  Em alguma situação você precisou usar “lentes corretivas?” Talvez um retrato imaginário seja a melhor maneira de perceber a diferença entre enxergar algo com, ou sem óculos. Paulo está pedindo que a igreja veja quem é Jesus. Que a igreja experimente Jesus, e não apenas tenha algum tipo de reconhecimento abstrato. Este pedido de clareza, também  ensina-nos a entender o que Jesus está requerendo da igreja. Eis uma questão chave para um maior entendimento sobre o assunto: Como Deus é glorificado pela igreja da qual eu sou parte?.  Nós muitas vezes buscamos sabedoria para manter nossa organização, manter a igreja como uma entidade viva, ou talvez até mesmo, tentamos fazê-la crescer. Que o nosso principal pedido seja que tenhamos os olhos do nosso entendimento abertos  para conhecer mais a Jesus e saber como glorificá-Lo como igreja.

O desenvolvimento da nossa missão e visão como igreja, deve honrar a Deus e não servir como trampolim para um mergulho em nossa vaidade ou  autoafirmação. Finalmente, essa declaração  visionária deve ser precisa. Precisão exige discernimento claro sobre direção ou chamado. É tentador pensar em novos objetivos depois de sermos bem sucedidos em alguma tarefa. Esse é o desejo que geralmente temos ao atingirmos metas, porém, devemos pensar em cumprir nossa missão não apenas de modo individual, mas cumprirmos como igreja, para a igreja e para Deus.

Movimento

A sequência da oração de Paulo apresenta um chamado ao movimento: "...a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou..."       (Efésios 1:18 b).

Paulo está pedindo que a igreja conheça a glória futura que Deus preparou,  e  o chamado à ação imediata. Deus estabeleceu sua igreja para que a igreja ponha em prática a missão a ela designada. Isso requer mais ação e menos retórica. Igreja em movimento é igreja que planeja e  age. Suponhamos que estejamos fazendo um bolo. Demorou um longo tempo para juntar todos os ingredientes e colocá-los no forno. Quando o temporizador desliga, o cheiro na cozinha é maravilhoso, mas, estamos exaustos ou distraídos e não o retiramos  do forno no tempo determinado. O bolo passa do ponto, ficando todo queimado. Quem iria fazer isso intencionalmente? No entanto, muitas vezes fazemos planos como  igreja, discutimos estratégias para por em prática nosso chamado por Deus para abençoar a comunidade, mas acabamos não agindo como deveríamos. O movimento ou ação é necessário termos para que possamos sentirmos o gosto e a clareza de um  trabalho árduo e, assim, desfrutarmos de uma missão cumprida na integra. Movimento, também requer preparação. Quando o bolo  estiver pronto, podemos tentar retirá-lo do forno rapidamente sem o uso de luvas, porém, certamente teremos as mãos queimadas. Não podemos apenas retirar o bolo do forno, devemos estar preparados para essa atividade. Igreja em movimento exige preparação de todos os membros envolvidos, para que haja crescimento espiritual.  Isso, também requer confissão a Deus de nossos pecados para efetivamente caminharmos ao lado de Jesus e, então, estarmos preparados para agir.

Alinhamento

A oração de Paulo segue, mas agora pede alinhamento. “...as riquezas da gloriosa herança dele nos santos..." (1:18c). Observe o que Paulo está dizendo: Esta é a herança de Deus, e não a herança do crente. Você e eu somos considerados  herança de Deus. Eu não creio que isso seja um exagero. Não esqueçamos que o texto bíblico considera o crente salvo, como particular tesouro de Deus. (Malaquias 3:17). É preciso fazermos uma autoavaliação: Eu vivo como uma herança de Deus? Eu vivo como se fosse um tesouro para Deus? Estas perguntas consistem em um exame de consciência, e não uma atitude de pensar se sou melhor do que as demais pessoas. Ao mesmo tempo, é um lembrete de que Deus se importa comigo. Um questionamento mais complicado, ocorre quando as pessoas consideram se somos ou não propriedades de Deus. Geralmente, as pessoas nos avaliam quando conversam conosco. Somos questionados e as vezes mal interpretados quando nos envolvemos em negócios, quando discordamos sobre  assuntos teológicos. Ampliando a questão: Esta igreja vive em prol da coletividade, ou seja, cada membro está disposto a batalhar por todos os demais membros, considerando a igreja como um todo? Quando um membro pensa e age de forma individual, o corpo estará  fora de forma e não terá forças para permanecer forte. Se temos uma grande tarefa em nossas mãos, pensemos no alinhamento como um prumo, que é uma ferramenta composta por uma linha, tendo em cada extremidade um peso. Quando se constrói um muro, ou uma parede, o construtor apoia o peso superior na parte que está sendo encaixada, alinhando-a com as demais, que, já estão devidamente alinhadas umas às outras.

Foco

A igreja tenta atender as preferências de todos e tenta pegar as 50 bolas ao mesmo tempo, deixando quase todas caírem

Paulo ora a Deus para que todos saibamos: “qual é a extraordinária grandeza do Seu poder para nós que cremos..." (1:19). Ele está propondo à igreja uma experiência de vida sob a autoridade e poder de Jesus Cristo. Essa proposta faz uma declarada oposição ao poder da magia e a todo o ocultismo reverenciado na Éfeso de sua época. Paulo exterioriza em sua maneira de descrever, a verdadeira fonte de poder que é Jesus  Cristo. (Efésios 20). Isto nos ensina a seguir Jesus, praticar o que Ele requer de nós, e trabalhar sob a Sua autoridade, em vez de priorizar nossos deleites e optarmos por fazer nossa própria vontade. Entender o que Cristo está fazendo por nós e por meio de nós, requer foco. Precisamos nos concentrar como em um jogo de pingue-pongue. Imaginemos o pastor JR Schick, que é um excelente jogador rebatendo bolas de pingue-pongue, uma de cada vez. Ele é incrível! Imagine agora cerca de 50 bolas de pingue-pongue jogadas para ele de uma só vez. Sua habilidade está longe de ser a mesma. Poderíamos comparar uma situação como essa, ao que as vezes ocorre com nossas igrejas? A igreja tenta agradar a todos, e tenta resolver todos os problemas de uma só vez. E como no exemplo do jogo de pingue-pongue, “acaba soltando todas as bolas, ou a maioria delas”  Precisamos olhar para o que é "bom" e o que é "melhor" e então decidir,  ter um foco específico para melhor atendermos ao chamado de Deus. São decisões muitas vezes difíceis  para tomarmos, mas necessárias para podermos fazer o melhor para Deus.

Que possamos orar fervorosamente pedindo clareza para vivermos o querer de Deus por meio de seu chamado. Ter movimento para estarmos  no plano de Deus. Andar em alinhamento para que possamos ser preciosos aos olhos de Deus. E, finalmente, que tenhamos  foco como igreja para organizar nossas vidas.


[1] Community watch program: programa de vigilância da comunidade local.


Texto original:

Rev. Carl GreeneThe Pulse of a Healthy Church. http://www.sabbathrecorder.com/2017/10/25/the-pulse-of-a-healthy-church-2/. Acesso em 17 de janeiro de 2018.

Traduzido por João Henrique Barreto

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