Texto Estudo

  E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça;    

Lucas 22:15 

A Santa Ceia é a atividade eclesiástica mais celebrada da Igreja de Cristo. Ela é parte essencial de todas as igrejas, sejam grandes, sejam pequenos grupos. Trata-se de um ato sagrado, ordenado por Deus, no qual o Senhor Jesus apresenta-Se a nós e eleva-nos ao celestial e invisível. Ampliando essa visão, é um sacramento que deve ter reverência, pois exibe e testifica a comunhão do Senhor Jesus e dos que o recebem, incluindo a promessa de preservação à Sua Igreja.

            A instituição da Ceia do Senhor foi sacramentada na última refeição da Páscoa. Ela tipificou o sacrifício que ocorreria no dia seguinte. Nessas circunstâncias, Cristo substituiu a Páscoa por uma cerimônia mais simples, a qual ordenou repetir até que Ele retorne.

            Diante desses pressupostos, somos ordenados a trazer à memória a morte do Senhor, até que Ele venha, como afirma o apóstolo Paulo: Da mesma forma, depois da ceia, Ele tomou o cálice e disse: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, sempre que o beberem, em memória de mim". (1 Coríntios 11:25)

            Nesta seção, estudaremos acerca dos principais aspectos da Última Páscoa realizada pelo Senhor Jesus, na visão do Evangelho de Lucas. Ademais, de forma preliminar, observaremos os elementos constitutivos da ceia e seus significados.

 

A ÚLTIMA PÁSCOA

            Ao longo de Sua jornada nesta Terra, Jesus afirmou que o tempo d’Ele estava próximo e que celebraria a Páscoa com os Seus discípulos.

A Páscoa era a primeira festa do calendário judaico, celebrada, anualmente, “no mês primeiro, aos 14 do mês, no crepúsculo da tarde”. (Levíticos 23:5) Era a ocasião em que cada família, em Israel, comemorava a libertação da nação do Egito com o sacrifício de um cordeiro sem mancha. A festa também era a mais antiga dentre os dias festivos dos judeus, já sendo a primeira celebrada na véspera da libertação israelita do Egito.

            A Páscoa era imediatamente seguida pela festa dos Pães Asmos. (Levíticos 23:6) Esse acontecimento durava uma semana, o que fazia estender o período inteiro para oito dias. As duas festas eram tão intimamente associadas que o período de oito dias era, às vezes, chamado de “a Páscoa”; ou, às vezes, de “a Festa dos Pães Asmos”. O Novo Testamento usa os termos sem distinção, repetindo o linguajar utilizado comumente. Porém, em termos técnicos, a “Páscoa” refere-se ao 14º dia de Nisã (o primeiro mês do calendário judeu) e a “Festa dos Pães Asmos”, aos sete dias restantes do período festivo, que terminava no dia 21 de Nisã.

            Quatro dias antes da Páscoa, em 10 de Nisã, cada família tinha de escolher um cordeiro sacrificial sem mancha e separá-lo do restante do rebanho até a festividade, quando seria morto. (Êxodo 12:3-6)

 

A PREPARAÇÃO DA ÚLTIMA PÁSCOA

            A partir dos relatos de Lucas, fica evidente que Jesus já tinha organizado, de antemão, muitos detalhes para a noite de Páscoa. Com tantos israelitas visitantes, que vinham anualmente a Jerusalém para a festa, era comum que os habitantes mantivessem aposentos a serem alugados. Assim, os visitantes tinham um lugar privado para comerem a refeição da Páscoa com amigos e a família.

Os relatos sobre o evento pascal levam-nos a entender que Jesus fez os preparativos iniciais em segredo evitando que que o local onde estaria com seus discípulos  ficasse conhecido com antecedência. Provavelmente, se Judas tivesse conhecido o local da Última Ceia, teria sido fácil para ele revelar ao Sinédrio a localização de Jesus. Era plano de Deus que Cristo celebrasse a Páscoa com Seus discípulos, antes de ser traído.

            Os preparativos foram, provavelmente, divididos entre alguns discípulos. Um criado do proprietário do Cenáculo organizava a sala e a mesa em que seriam servidos os elementos. Em Lucas 22:8 Pedro e João foram especificamente designados para encontrarem certo homem e ajudar a preparar o Cenáculo. Lucas ainda relata que “eles saíram e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. Então, prepararam a Páscoa”. (Lucas 22:13)

            Os acontecimentos daquela noite de Páscoa demonstravam que o verdadeiro Cordeiro de Deus estava próximo de ser sacrificado, e a última refeição seria rica de significados, mais que qualquer Páscoa já observada pelos israelitas.

 

A FESTA PASCAL

            Havia uma sequência bem estabelecida quanto à comida e à bebida, durante a refeição pascal. Havia quatro cálices de vinho compartilhados entre os participantes, mais três alimentos centrais – cordeiro, ervas amargas e pães asmos. Vejamos a sequência:

            1 -  O primeiro cálice era chamado o cálice da santificação. Naquele momento, ocorria uma lavagem cerimonial e, em seguida, comiam-se as ervas amargas. Elas eram servidas com um molho espesso e avermelhado; em hebraico, haroset, composto de uma mistura de frutas secas – tâmara, amêndoas, figos, passas –, esmagadas e diluídas em um pouco de vinagre. A amargura das ervas evocava a aspereza da escravidão de Israel no Egito.

            2 - O segundo era o cálice do juízo. Era nessa hora que o cabeça da casa explicava o significado da Páscoa. Em uma festa tradicional, a criança mais jovem fazia quatro perguntas predetermidadas, e as respostas eram recitadas de uma narrativa poética do Êxodo. A circulação do segundo cálice devia ser acompanhada pelo cântico de salmos. O cordeiro assado era servido na sequência. O chefe da casa lavava as suas mãos novamente, partia e distribuía os pedaços do pão sem fermento às pessoas ao redor da mesa para ser comido com o cordeiro.

            Fazia-se o pão asmo sem fermento, preparado com farinha diluída em água. Era posto em pratos e levado em fogo até endurecer. O gosto era insosso, de uso obrigatório durante o tempo da festividade da Páscoa, cujo propósito era recordar quando Deus libertou o Seu povo do jugo egípcio. (êxodo 12:15-20,39) O pão asmo lembra a saída, às pressas, e a corrupção do “fermento” que ficou para trás no Egito. Pode ser que, durante esse momento, Jesus tenha afirmado que seria traído.

            3 - O terceiro cálice é o da redenção ou bênção. O ministrante enchia o terceiro cálice um pouco mais e, ao dá-lo aos participantes (o cálice era repassado entre todos), derramava-o, fazendo com que esborrasse, ou seja, dava sentido de transbordamento, de abundância. Esse momento teria sido a instituição da Ceia.

            4-  O quarto cálice é o do louvor. Era a finalização da Páscoa

Alguns teólogos afirmam que os cálices de vinho fazem-nos lembrar dos momentos em que o povo foi libertado por Deus de Faraó: “E ouviu Deus o seu gemido, e lembrou-se Deus da sua aliança com Abraão, com Isaque, e com Jacó; E viu Deus os filhos de Israel, e atentou Deus para a sua condição.”. (Êx 2:24,25) A cada uma dessas ações atribuiu um cálice.

 

NO INÍCIO DA CEIA

            De acordo com o relato de Lucas, foi no momento inicial que Jesus declarou que esperara ansiosamente por celebrar a Páscoa com os discípulos, antes que tivesse de padecer. O Senhor anunciou-lhes que seria a última celebração que realizaria na vida terrena, mas que celebraria uma nova festa no Reino de Deus . Jesus aguardou com grande expectativa aquele momento, não porque estava aguardando a própria morte, mas por poder celebrar uma Nova Aliança em Seu sangue.

Ainda nessa fase inicial, no verso 16, Jesus declara que não mais comeria a Páscoa de novo, até que se cumpra no Reino de Deus. Para Craig, “O sentido exato dessa declaração é incerto, mas provavelmente faz paralelo com o voto de Jesus, no v. 18. O Senhor não comerá da Páscoa, nem beberá do vinho até que venha o Reino de Deus. (O cálice bebido, no v. 20, não constitui violação desse voto, porque este entra em vigor só depois da ceia de Páscoa)”

 

UMA NOVA FESTA É INSTITUÍDA

No verso 17, Jesus inicia uma nova celebração, instituída a todos os cristãos. O cálice mencionado no v. 17 pode ter sido o primeiro, junto do qual se bendizia o nome de Deus por Sua dádiva do vinho; ou o segundo cálice, em que se levanta o significado da Páscoa, o que suscita uma resposta do pai ou, no contexto do Evangelho, de Jesus. O que Cristo declara, nos versos 17 e 18, pode muito bem ser um resumo de Sua explicação acerca do significado da festa, no que Ele próprio está envolvido. Em vez de olhar para trás, para o Êxodo, Jesus olha para a frente, para o Reino de Deus.

            Desse momento em diante, aquela última Páscoa tornou-se a instituição da ordenação da Nova Aliança, conhecida como a Ceia do Senhor. Essa noite marcou o fim de todas as cerimônias observadas por Israel. A Antiga Aliança, junto a todos os elementos cerimoniais que pertenceram a ela, estava findada em Cristo. Dali em diante, o povo de Deus celebraria com uma nova festa, em memória da obra de Jesus. Era o fim da Páscoa e o início de algo novo e maior. 

            Pão e vinho – Corpo e Sangue.

            Tomar o vinho e comer o pão eram elementos regulares da observância da Páscoa. No entanto, Jesus chocou Seus discípulos ao afirmar: “Comam, pois isto é meu corpo”. Em Seu tempo, era comum três pães e quatro cálices. Somente o pão do meio era partido; porém, apenas uma das metades era dividida entre os presentes. A outra ficava intacta.

            Ao comparar o pão a Seu corpo, Jesus assume ser o Cordeiro. Revela, assim, durante a comunhão, ao redor da mesa, que irão se separar, pois Ele será morto. E tensão intensifica-se: ao partir do pão, indica o Seu corpo sendo ferido; e, ao falar de derramamento de sangue, anuncia “um ato violento de autodoação”.

            De modo semelhante há a simbologia do cálice, que o Senhor descreve como “o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado por vós” (v.20), isto é, pelos discípulos de todas as épocas. As palavras de Cristo, enquanto o cálice passava de um em um, teriam aturdido os discípulos, até mesmo mais do que a Sua referência ao pão como corpo d’Ele. A lei cerimonial do Antigo Testamento proibia estritamente comer e beber qualquer tipo de sangue.

            A classificação do Seu sangue como a representação da Nova Aliança é significativo. As principais alianças sempre foram ratificadas pelo derramamento de sangue sacrificial. Quando a mosaica foi instituída, Moisés endossou-a sacrificando vários bois. Ele coletou o sangue de cada animal, em bacias grandes. Então, tomou um ramo de hissopo, imergiu-o no sangue e aspergiu-o sobre o povo, atirando gotas sobre a congregação inteira. Nessa ocasião, Moisés afirmou: “Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez conosco”. (Êx. 24.5-8)

 

            A Nova Aliança

            Na Nova Aliança, o sangue de Cristo serviu para a definitiva reconciliação entre Deus e o homem que Ele comprou. Ao mesmo tempo, na última Páscoa, Jesus constituiu uma nova ordenança à Igreja. Quando disse que seria o último cálice que Ele beberia com Seus seguidores, até que o bebesse novamente no Reino do Pai, não apenas salientou quão iminente era a Sua partida, mas assegurou o Seu retorno. Implicitamente, assegurou que todos estariam juntos a Ele naquele Reino glorioso.

            A linguagem simbólica é rica nesse enredo. O cordeiro pascal é símbolo de Jesus quando diz: “Tomai, comei, isto é o meu corpo” e “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue”. A metáfora tem o objetivo didático de aprofundar o conhecimento a respeito de Jesus e levar o leitor a compreender o significado de Seu sacrifício para sua vida.

 

Uma lição sobre humildade...

            Após a fase inicial da Páscoa, havia uma lavagem cerimonial. Pelo relato de Lucas 22:24 parece ter sido durante essa parte que os discípulos “suscitaram também entre si uma discussão sobre qual deles parecia ser o maior”. O Mestre levantou-Se da mesa, tirou o manto e, pegando uma toalha, colocou-a em volta da cintura. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés dos discípulos e enxugá-los com a toalha com que estava cingido. (João 13:4-5) Tomando o papel do mais baixo servo, Cristo transformou a limpeza cerimonial numa lição prática sobre a humildade e a verdadeira santidade. A lavagem externa nada vale se o coração estiver contaminado. A lavagem dos pés feita por Cristo ilustra que, até mesmo crentes com corações regenerados, precisam ser lavados, periodicamente, da corrupção externa do mundo.

            Lavar os pés era uma tarefa delegada ao mais baixo escravo. Provavelmente, num Cenáculo alugado, haveria um criado à disposição para lavar os pés dos convidados quando eles entravam. O gesto de Cristo foi tanto um ato de auto-humilhação como uma repreensão sutil aos discípulos. Também pode ser considerado um modelo para o tipo de humildade que Ele espera de todos os cristãos.

            Neste sentido, Morris afirma:

 

A atitude cristã está em nítido contraste. Entre os homens de Cristo, o maior deve ser como o menor, i.é, deve aceitar o lugar mais humilde. No mundo antigo, aceitava-se que a idade dava privilégios. O mais jovem era, por definição, o menor. No mesmo espírito, o que dirige deve ser como o que serve. O lavapés que João registra foi uma ilustração notável da disposição de Jesus de tomar o lugar daquele que serve. Fez assim embora tivesse direito ao lugar supremo e os homens naturalmente estimem o que janta como sendo superior ao garçom. Todos os três exemplos da palavra servir traduzem diakonõn, verbo este que significa, em primeiro lugar, o serviço do garçom e que, portanto, está muito aplicável. A partir disto, veio a significar serviço humilde em geral, e é isso que está em mente aqui. Jesus não está dizendo que, se Seus seguidores desejarem subir a posições muito elevadas na Igreja, devem primeiramente ser testados numa posição humilde. Está dizendo que o serviço fiel num lugar humilde é, em si mesmo, a verdadeira grandeza

 

A TRAIÇÃO DE JUDAS

            Provavelmente nos momentos iniciais da refeição, Jesus afirmou que um dos discípulos iria traí-Lo. Pode-se imaginar o espanto e o desalento provocado durante uma ocasião festiva. Muitíssimos contristados, os apóstolos começaram a perguntar: “Porventura, sou eu, Senhor?”. Jesus apenas respondeu: “O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá”. Sobre a natureza desse tipo de traição, Davi descreveu, em um dos salmos:

 

“Se um inimigo me insultasse, eu poderia suportar; se um adversário se levantasse contra mim, eu poderia defender-me; mas logo você, meu colega, meu companheiro, meu amigo chegado, você, com quem eu partilhava agradável comunhão enquanto íamos com a multidão festiva para a casa de Deus!” (Salmos 55:12-14)

 

            Davi, no Salmos 41:9 escreveu a sua tristeza sobre Aitofel, que se uniu ao filho Absalão: “Até o meu melhor amigo, em quem eu confiava e que partilhava do meu pão, voltou-se contra mim”.

            Os onze discípulos, além de Judas, ficaram intimidados pelo pensamento de que um seria culpado de um ato tão cruel. E, no entanto, é notável que a primeira resposta de todos não tenha sido acusar; mas, sim, o autoexame. Na certa, cada um desejava saber se de, alguma forma, poria em risco o Senhor.

 

CONCLUSÃO

            A Ceia do Senhor tem uma referência passada à morte de Jesus e também uma referência presente à nossa participação corporativa em Cristo, mediante a fé. Pode-se, da mesma forma, falar em referência futura pelo fato de ser uma garantia da sua segunda vinda. Ao participar da Ceia, relembramos o quanto Cristo sofreu por cada um de nós; por isso, devemos vivenciá-la em toda a sua plenitude. p.290.

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