E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.    

Lucas 15:13 

O capítulo 15 de Lucas traz uma mensagem em três cenas. As três cenas são três parábolas e estão interessantemente relacionadas umas às outras. Elas se organizam em torno dos temas da perda, recuperação e celebração. Apesar destas evidentes semelhanças, há também diferenças entre as três parábolas contadas por Jesus. Isso, por certo, demonstrava a riqueza de seu repertório didático. Jesus não discursava palavras, ele pintava um quadro na mente das pessoas. Tal habilidade revelava os dotes de um grande “mestre artista”. O presente estudo focalizará a parábola do filho pródigo, destacando seu enredo e detalhes a partir dos pontos de vistas das personagens.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A estória que Jesus conta nesta parábola tem despertado o fascínio dos leitores da Bíblia há bastante tempo. Tal fascínio talvez tenha haver com o fato de ela trazer um problema de família e mostra como esse problema foi resolvido. Claro que essa é uma síntese muito simplista da parábola. Fato é que ela contém uma trama envolvente, riqueza de detalhes e com personagens bem diferentes, que se harmonizam perfeitamente. Talvez, seja justamente essa atratividade literária nela contida e sua vocação em ser tão direta que esconda alguns desafios de interpretação.

Por exemplo, a parábola é mais comumente conhecida como “o filho pródigo”. Mas, se prestarmos bem atenção na parábola como um todo, não é apenas sobre um filho que a parábola trata. As atitudes dos dois filhos merecem destaque. Outra coisa que deve prender nossa atenção é o motivo do porquê a parábola foi contada. Lá em Lucas 15:2 diz: “E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles”. Jesus já vinha sendo observado pelos fariseus (Lucas 14:1). Lucas procurava mostrar a resistência que Jesus vinha sofrendo por parte das lideranças religiosas judaicas da época. E por que essa resistência? Dentre as variadas razões, persistia a crítica de que Jesus estava sempre se envolvendo com os pecadores. Inclusive, esse é o problema em Lucas 15:1. Uma questão cultural importantíssima se levanta aqui na introdução desta parábola. Pois, como bem explicado por Jeremias, um estudioso do Novo Testamento citado por Bailey1:

Para entender o que Jesus estava fazendo ao comer com os ‘pecadores’ é importante perceber que no Oriente, até hoje, convidar um homem para uma refeição é uma honra. É uma oferta de paz, confiança, fraternidade e perdão. Em suma, compartilhar de uma mesa significa compartilhar da vida... Desta forma, as refeições de Jesus com os publicanos e pecadores... são expressões da missão e da mensagem de Jesus (Marcos 2:17), são refeições escatológicas, celebrações antecipadas do banquete do fim dos tempos (Mateus 8:11 par.), em que a comunidade dos santos já está sendo representada (Marcos 2:19). A inclusão de pecadores na comunidade da salvação, conseguida com a comunhão à mesa, é a expressão mais significativa da mensagem do amor redentor de Deus.

Portanto, sentar para tomar uma refeição neste contexto é um símbolo de aceitação. Esse gesto cultural está cheio de significados socialmente construídos. Por isso, tal elemento contextual não pode passar despercebido em nossa análise. Consideradas estas questões iniciais, agora é possível entender a razão do por que Jesus conta essas parábolas. Elas, as parábolas, funcionam como uma espécie de defesa dos atos de Jesus. Voltemo-nos agora para a específica parábola do filho pródigo, ou do “pai compassivo e os seus dois filhos perdidos” 2. Nossa proposta é analisar, em separado, as atitudes de três personagens: o filho pródigo, o pai do pródigo e o irmão do pródigo. O objetivo é captar lições que possam corresponder ao relacionamento que temos com Deus, seu Reino e os demais membros da família espiritual.

O FILHO PRÓDIGO

O pedido do jovem rapaz nesta parábola é curto (Lucas 15:12), mas cheio de implicações. Ao pedir sua herança aquele moço estava abandonando o trabalho no campo, de onde foi tirado seu sustento até aquele momento. Esse pedido também o estava liberando da responsabilidade com seu pai, pois os filhos deveriam cuidar de seus pais a certa altura da vida. Ele põe o pai sob pressão. Se a atitude desse jovem fosse encarada como rebeldia, ele poderia ser punido com apedrejamento segundo a lei em Deuteronômio 21:18-21. Com base em suas atitudes, sugerimos as seguintes afirmações para refletir: 

1. Cuidemos para não pedirmos a coisa certa no momento errado 

Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe...” (v.12). Jesus propositadamente gera uma tensão nos seus ouvintes ao destacar esse pedido. Claro que esse era um direito dele. Porém, naquela estrutura social e familiar, não era esperado tal atitude. Isso ia contra os padrões da época. Um campo era propriedade da família. Logo, o pedido daquele jovem criara uma ruptura na estrutura familiar. Pela ordem, o filho mais velho é quem tomaria a primeira parte da herança. E, uma vez que a recebesse, e seus pais estivessem vivos, seria incumbido do dever de cuidar dos pais. Ou seja, os pais ainda teriam algum direito na herança. Sendo assim, o ponto grave do pedido do jovem, segundo alguns estudiosos, é que ele estava considerando seu pai como morto3. Ele cria uma ruptura de laços com a terra, seu pai e seu irmão. Ele se desliga daquela comunidade. Todos estes detalhes revelam alguém muito precipitado. Esta precipitação ganhará cores vivas quando as desventuras começam a assolar o jovem rapaz. Será que não é assim que nos comportamos algumas vezes? A condição de filho de Deus não é suficiente? O mundo tem seus encantos, mas não deixemos esses encantos nos tirar a condição mais valiosa que temos – a de sermos filhos de Deus.

2. Algumas vezes Deus concede-nos o que tanto queremos para saber até onde seremos responsáveis com isso

Longe do pai, o jovem agora tinha toda a liberdade que pudesse imaginar. Beberia de sua independência a grandes goles. Aquilo que ele tanto queria estava diante de si. Com a concessão do pai, recebeu não somente o meio (a parte da herança) para patrocinar o novo estágio de sua vida, mas também o senhorio dela. Nem sempre teremos capacidade e estrutura para administrar aquilo que tanto pedimos. Jesus relatou que “... desperdiçou os seus bens vivendo irresponsavelmente” (v.13). Se nem Adão e Eva em seu estado perfeito puderam arcar com a própria liberdade, que poderemos fazer nós, vasos tão frágeis?

3. Às vezes é preciso uma crise se instalar para que nossa autonomia cobre seu preço

Enquanto tinha dinheiro para patrocinar sua aventura, o jovem se sentiu capaz. Contudo, bastou uma desventura bater de frente com ele para se sentir incapaz e experimentar o que nunca havia experimentado antes – ou seja, ele passou necessidade pela primeira vez. Viver autonomamente tem seus privilégios, mas também tem suas responsabilidades.

4. Nem sempre valorizamos aquilo que deixamos para trás

Aquele rapaz experimentou isso da pior maneira possível. Ele pensou consigo mesmo: “Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome!” (v.17). Essa lembrança agora se tornou vívida na mente dele. Antes, talvez, nunca tivesse percebido a vida boa que tinha na casa paterna. A fartura era tanta que até os empregados tinham boa condição! Isso fez aquele jovem perceber valor em coisas que antes não valorizava. Seguindo adiante, acredito que esta parte da parábola gera certa provocação, em nós leitores, concernente a um ponto teológico relevante. Será que poderíamos falar em arrependimento por parte deste jovem? Quer dizer, ele disse que havia pecado contras os céus e contra o pai dele. Mas que pecado específico foi esse? Por um determinado ponto de vista, podemos fazer uma leitura do texto enxergando que o que motivou a fala ensaiada do jovem não foi o fato de ter machucado seu pai, e sim porque o dinheiro acabou, e ele estava na miséria! Se for assim, podemos realmente afirmar que houve um arrependimento genuíno da parte dele? Como o pai assimilaria sua atitude? A parábola não responde a todas as nossas questões. Apenas diz que o pai o aceitou de volta, e nem sabemos se o pródigo mudou realmente de atitude. Mas, isso parece pouco importar. As parábolas são apenas recursos literários que tentam ao máximo aproximar ou pôr em evidência verdades profundíssimas de um outro mundo – o Reino de Deus! Quanto a nós, fiquemos apenas com aquilo que Jesus quis revelar, trazer à luz. O foco não estava na genuinidade o não genuinidade do pedido de perdão, mas na ação do pai que é capaz de fazer muito mais além daquilo que pedimos ou pensamos (Efésios 3:20).

O PAI DO FILHO PRÓDIGO

Passemos agora às atitudes do pai daquele jovem esbanjador. Temos nas ações deste homem uma vívida ilustração da abundância da Graça de Deus. O caráter de Deus está em foco aqui. A parábola cria uma correlação entre o pai e Deus.

1. Deus muitas vezes condescende, não porque é complacente, mas porque é amoroso.

Há muita coisa sobre o amor de Deus que não conseguimos apreciar por completo. O início da parábola parece colocar o filho mais novo no controle da situação. Ele requer, ele consegue. Nenhum limite é imposto a ele. Nem mesmo seu pai, o único que poderia detê-lo, quis fazer algo. No entanto, acabamos descobrindo que isso é apenas uma impressão. O pai estava no controle o tempo todo. Mesmo que pareça de imediato errado ao nosso próprio senso de julgamento. Deus sempre nos surpreenderá. Ele faz coisas que nós não entendemos de imediato, mas temos a possibilidade de compreender depois. Por outro lado, há também a possibilidade de nenhuma explicação nos ser dada. Assim como ocorreu com Jó, o fato de levantarmos perguntas não significa que elas serão respondidas.

Nosso texto diz que o pai atendeu ao pedido do filho mais novo. Imagine você como isso deve ter sido dolorido para ele. Aquela situação se configurou numa verdadeira rejeição à legítima paternidade. Implicitamente, aquele jovem tratou seu pai como morto. Mesmo em meio a tudo isso ele resolveu consentir. E porque fez isso? Por amor. Isso nos choca! Como o amor poria em risco aquele a quem tanto ama? Pois é, esse é um dos mistérios do amor. É paradoxal para nós. O que nos leva a possível conclusão de que aquele pai agiu por amor é através do final da parábola. No final é que compreendemos que tudo foi por amor.

2. Deus realmente não nos trata segundo nossos merecimentos, mas segundo a sua compaixão

Claramente isso pode ser visto tanto na primeira atitude tomada pelo pai quando avistou seu filho de longe, quanto em preparar uma festa para ele. Essa compaixão toda era a base do caráter daquele pai. Ele poderia muito bem ter feito ao contrário. E seria justo se o fizesse. Mas vale ressaltar que também foi justo o que ele fez, pois quem ama de verdade está sempre disposto a perdoar. O perdão não anula a justiça. Apenas realça um aspecto dela que geralmente não captamos de imediato. O fato de o filho ter resolvido voltar demonstrava arrependimento, e diante disso era justo que o pai o recebesse!

3. Deus tem interesse em manter a porta da reconciliação aberta

É impressionante perceber a atitude do pai. Primeiro de longe ele avista o filho. Depois sai correndo e abraça-o. E ainda prepara uma festa para o retorno do filho. Essas atitudes nos levam a deduzir que o pai não havia fechado a porta da reconciliação. Outra coisa que nos deixa impressionados é que aquele pai tinha à mão roupas e sandálias e um anel para aquele filho. Realmente esse foi um ato tremendo de amor! Foi além das expectativas do filho mais novo e também do filho mais velho. A alegação para a base de tal comportamento inesperado deste pai é: “Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado” (v.24). A alegria do reencontro superou a tristeza da partida. Nisso podemos ter certeza de que não existe vida tão perdida que Deus não possa recebê-la e transformá-la. 

O IRMÃO DO FILHO PRÓDIGO

Agora analisemos a última grande cena de nossa parábola. A revolta do filho mais velho é descarregada em cima do pai. Ele não conseguiu ver a situação da mesma maneira que o pai a via. Esse personagem corresponde aos fariseus e escribas, que se viam justos diante de Deus e julgavam a vida daqueles que não lhe eram semelhantes. Observando a atitude do filho mais velho podemos captar as seguintes lições:

1. A ira nos impede de entrar no gozo da reconciliação

Quando o filho mais velho perguntou aos empregados de seu pai sobre o que estava acontecendo no meio de toda aquela festança, tal foi sua surpresa ao saber que o irmão mais novo havia retornado e agora estava sendo honrado. Ele se recusou a entrar em casa. Agora é o filho mais velho que se afasta da casa paterna. Assim podemos entender que o sentimento que afasta esse rapaz da casa paterna é igual ou pior ao que levou seu irmão a viver uma vida de aventuras irresponsáveis. Nem a prodigalidade ou mesquinhez abrem espaço para a reconciliação.

2. A ira nos impede de aceitar o valor daquilo que está sendo restaurado

O filho mais velho está tão irado que não se refere ao jovem como seu irmão. Ele apenas disse ao pai: “este teu filho...” (v.30). O pai enxergava o que o filho mais velho não conseguia ver e aceitar. Aquele filho tinha um valor imenso para aquele pai. Que valor poderia ter um novilho em comparação ao valor daquele filho que retornara para casa?! Aqui vemos aquele velho problema, ou seja, valorizam-se as coisas em lugar das pessoas.

3. Nosso senso de ‘justiça própria’ bate de frente com a justiça de Deus

A raiva do filho mais velho não era contra o seu irmão. E sim contra o pai. Ele contra argumentou o pai, dizendo que a vida inteira havia servido seu pai, sem desobedecer a nenhum de seus mandamentos. O que ele estava querendo dizer? Está apresentando sua obediência como base de seus direitos. Só que o pai oferece uma resposta que não necessariamente despreza aquela obediência toda, mas a coloca no lugar certo.

Primeiro o pai diz que seu filho mais velho sempre esteve com ele. Ou seja, nunca virara as costas para o pai. Isso é um elogio. Em segundo lugar, tudo o que o pai tinha nunca deixou de pertencer a ele. Enquanto ele estava preocupado com um cabrito e uma festa simples com os amigos. O pai asseverou “tudo o que é meu é teu” (v.31). Nosso senso de justiça por muitas vezes não contempla o quadro todo, apenas as partes. A volta do irmão mais novo não diminuiria a herança do filho mais velho. Enquanto o irmão do pródigo estava focado na herança, o pai queria lhe mostrar que ele havia ganhado algo mais valioso que a herança. Ele havia ganhado também seu irmão de volta. No Reino de Deus os ganhos correm em cima de outra lógica. O pai queria que o filho mais velho entendesse que a vida é mais importante que bem materiais! O filho mais velho era obediente e fiel, mas era pobre em compaixão e misericórdia.

CONCLUSÃO

Nossa análise da conhecida parábola do filho pródigo trouxe à tona algumas lições bem significativas. Apesar de se tratar de um caso de família camponesa lá pelos lados do Oriente Médio, há muito tempo atrás, ainda sim podemos nos identificar com o que nos está sendo contado. A prodigalidade é ainda presente em nossos dias. Por muitas vezes desperdiçamos aquilo que Deus nos deu em Seu amor. A prodigalidade contemporânea leva-nos a contemplar “passarinhos que estão voando” e não agradecer pelo “passarinho que está na mão”. Isso nos remete ao difundido senso de insatisfação atual que nos acomete muitas vezes. Por outro lado, outra grande mensagem que esta parábola nos traz é de pensarmos em obediência e fidelidade a Deus como se fosse uma moeda de troca. Essa é outra armadilha tão daninha quanto ceder aos encantos desse mundo em prol de aventuras. Perceba que o que realmente vale não é o que achamos, e sim o que Deus pensa. Ele sonda os corações e sabe as reais motivações pelo qual fazemos determinadas coisas. Prodigalidade e meritocracia são ameaças à alegria da reconciliação. Quanto vale uma vida perdida? Quanto vale uma vida reencontrada? Difícil responder! Ainda bem que o único que tem a palavra final sobre quem está dentro ou quem está fora do Reino dos Céus é o próprio Deus! A Ele, pois, seja a honra, a glória, e o louvor para todo sempre.

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO EM CLASSE

1 - Qual foi a razão para Jesus ter contado esta parábola? 

2 - Quais semelhanças e quais diferenças você nota entre essa parábola e as parábolas da ovelha perdida e da moeda perdida? 

3 - De que forma os fatores culturais influenciam na compreensão da parábola? Quer dizer, as leis de propriedade e herança ajudam a entender a trama da estória?

4 - Em sua opinião, a parábola ilustra a condição humana de uma forma geral, ou é algo restrito ao contexto judaico? 

5 - Você acha que o pródigo se arrependeu de verdade? Você acha que o irmão do pródigo era realmente obediente e fiel? Se sim, a que ou a quem ele era fiel?


1 BAILEY, Kenneth. A poesia e o camponês: uma análise literária-cultural das parábolas em Lucas. São Paulo: Vida Nova, 1985. p.194.

2 SNODGRASS, Kline. Compreendendo todas as parábolas de Jesus. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. P.182.

3 BAILEY, 1985, p.p. 215.

Artigos Relacionados

A Parábola da Figueira Estéril A Parábola da Figueira Estéril
  E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas...
A Parábola do Bom Pastor A Parábola do Bom Pastor
  Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. .   Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas.     João...
Parábola do administrador infiel Parábola do administrador infiel
E DIZIA também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens...
Parábola dos trabalhadores da vinha Parábola dos trabalhadores da vinha
  Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. .   Assim os...