Mas aqueles lavradores disseram entre si: Este é o herdeiro; vamos, matemo-lo, e a herança será nossa.    

Marcos 12:7 

As parábolas de Jesus são narrativas muito conhecidas. Desde crianças, nas escolas bíblicas infantis, somo ensinados sobre elas. E esse fato pode ser um fator negativo quando estudamos ou ouvimos um sermão, pois, de tão acostumados com suas histórias, podemos perder o caráter de extraordinário que as parábolas nos apresentam. Muitas vezes encaramos as parábolas de Jesus com frivolidade, sem buscarmos a essência central desta forma de discurso que o Mestre usou para anunciar o evangelho. De acordo com Jonh C. Ryle a parábola dos lavradores maus quer nos ensinar sobre o relacionamento de Deus com o seu povo, fazendo-os relembrar da história de Israel desde que deixaram o Egito até o tempo da destruição de Jerusalém. Usando o simbolismo de uma vinha e seus agricultores, o Senhor Jesus narrou a história do relacionamento de Deus com Seu povo que naquele momento oferecia, na figura do contador da parábola, o Seu único filho para a redenção. Nesta passagem, Jesus mostra aos homens qual é o caráter de Deus, quais os atributos divinos que devem ser conhecidos por Seu povo e que nos direciona à verdadeira adoração.

O Mestre nos mostra em primeiro lugar que Nosso Pai é Soberano e possui autoridade sobre essa Terra. Ao mesmo tempo, a concessão da vida, da natureza, da criação demonstram sua generosidade com a humanidade. Do outro lado, Deus também responsabilizou o homem em cumprir suas ordenanças, a fim de viver em abundância, produzindo frutos que nos levam a comunhão com o Senhor e nosso próximo. No entanto, os homens desejam ser donos da própria existência e história. Para isso, precisam extinguir toda sombra de autoridade e soberania de Deus sobre suas vidas. O ato final, a morte do filho do dono da vinha, Jesus, é a demonstração que a iniquidade ainda é predominante sobre a vida da humanidade. Porém Jesus escancara a longanimidade de Deus dando-nos esperança que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. Sobre estes movimentos narrados por Jesus é que estudaremos ao longo desta seção.

 

AUTORIDADE DE DEUS

“...Certo homem plantou uma vinha, colocou uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para prensar as uvas e construiu uma torre...”. (Marcos 12:1)

Jesus disse que um certo homem implantou uma vinha, e criou uma estrutura para produção de vinho e preocupou-se com a segurança de sua propriedade. Está claro que a vinha tinha um dono que exercia autoridade sobre aquela propriedade e os seus servos e funcionários. Não é difícil identificar que esse homem simboliza Deus e revela a Sua autoridade sobre tudo e todos. Autoridade define-se pelo direito e responsabilidade de comandar em determinada ou sobre toda e qualquer situação. E se nesta parábola Cristo inicia afirmando que há um proprietário, que empreendeu uma vinha e que tem autoridade sobre ela e seus empregados, pressupõe uma relação de obediência entre o dono e funcionários, bem como entre Deus e os homens.

Neste ponto, há uma pergunta fundamental que devemos realizar: Deus é realmente o nosso Senhor? Ele ocupa, em tudo, o trono de seu coração? Ele realmente governa a sua vida? Toda autoridade me foi dada no céu e na terra, afirmou Jesus, Logo, nós temos um Senhor, portanto não somos donos dos nosso “próprios narizes”. Paulo, aos gregos, afirmou: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos.” Nada podemos realizar sem a permissão de Deus. Nada acontece neste mundo por critérios aleatórios. No entanto, Deus criou o universo por Sua palavra, e mesmo agora Ele está “...sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa...” (Hebreus 1:3). O teólogo Vicent Cheung afirmou sobre a autoridade de Deus:

“Aprendemos a partir disto que todos os seres contingentes devem, não somente existência a Deus através do Seu poder criativo, mas eles podem continuar a existir somente através do Seu poder sustentador, visto que Deus é o único autoexistente. Nada pode existir aparte de Deus, e o reivindicar de autonomia, em qualquer grau, pelas coisas criadas, está excluído.”1

GENEROSIDADE DE DEUS

A Bíblia nos retrata um Deus gracioso e generoso que não vincula o Seu favor àquilo que merecemos. Isso fica claro, pois essa graciosidade e essa generosidade existiam antes da queda bem como depois dela. Quando Deus criou o homem, fez para ele coisas maravilhosas (Gênesis 2:9-18). Isso foi antes de o homem pecar. Mas, mesmo depois de pecar, o homem continuou sendo agraciado por Deus (Gênesis 3:21; 4:1). Deus age dessa maneira porque a Sua bondade não depende de nada além dEle mesmo. Bondade não é simplesmente aquilo que ele faz, mas sim, aquilo que Ele é. Por isso Jesus disse ao jovem rico: “Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Marcos 10:18).

O dono da vinha deixou tudo preparado e organizado para que os lavradores pudessem produzir uvas em abundância. Paulo afirmou que “...que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento”.(1 Timóteo 6:17). Charles Spurgeon sobre esse texto declara:

“Nosso Senhor Jesus está sempre abençoando, e nem por um só instante recolhe Sua mão. Enquanto houver um vaso de graça que não esteja cheio até a borda, o óleo não cessará. Ele é um sol sempre brilhando; Ele é o maná sempre caindo no campo ao redor; Ele é a rocha no deserto, sempre expelindo ribeiros de vida de sua face golpeada; a chuva de Sua graça está sempre caindo; o rio de Sua generosidade está sempre fluindo, e a fonte do Seu amor está sempre transbordando.” (...) Quem pode contar a poeira dos benefícios que Ele concedeu a Jacó, ou dizer o número da quarta parte de Sua misericórdia para com Israel? Como minha alma exaltará aquele que diariamente nos supre com benefícios, e que nos coroa com amável benignidade?”2

Essa declaração de Spurgeon retrata bem o nosso Deus, como diz Paulo: “aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32). Nenhuma benção que recebemos se compara ao dom do Filho de Deus que veio morrer por nós. Na cruz, Deus demonstrou a sua graciosa generosidade até as últimas consequências. Isso nos alegra o coração para esperar de Deus qualquer outra coisa, pois Se ele nos deu o que é de mais precioso, certamente não nos negará outras menores.

 

RESPONSABILIDADE DO HOMEM EM PRODUZIR FRUTOS

O dono da vinha construiu-a, estruturou-a com benefícios e por fim arrendou a lavradores. A vinha não era dos lavradores, mas eles tinham o compromisso e a responsabilidade contratual de produzir uvas. Porém esses homens descumpriram o contrato, pois desejavam ficar com a propriedade e a produção de uvas. A pergunta que nos cabe é: temos produzido frutos? Ou ao longo da nossa vida cristã temos apresentado apenas folhas, que escondem caules ressecados? Por que temos muitas dificuldades em produzir frutos? A iniquidade é a resposta certa para vinhas infrutíferas.

 

A INIQUIDADE E CONSCIÊNCIA HUMANA

A iniquidade da natureza humana, exemplificada na história de Israel, é o motor que conduz os lavradores a descumprirem as ordens do dono da vinha. De forma específica, Jesus relembra que profeta após profeta foi enviado aos israelitas, mas em vão. Milagre após milagre foi efetuado entre eles sem efeito duradouro. O próprio Filho de Deus desceu até eles; mas não creram nEle. Esta parábola traz à tona a terrível iniquidade do coração humano. Vemos nela o que homens e mulheres, ao longo da história, podem fazer em meio à abundância de privilégios religiosos, em meio de profecias, milagres e o Filho de Deus. Ao mesmo tempo, não podemos nos esquivar dessa parábola. Tal qual a nação de Israel, poderíamos ter milagres, profecias, o próprio Cristo entre nós; mas à semelhança de Israel, teria sido em vão. Não somos os donos da vinha, mas nosso desejo é sê-lo. Há uma forte inclinação humana em direcionar nossa vida baseada nos nossos desejos em sermos donos da nossa vida, levando a matarmos a exortação de Deus.

 

INCREDULIDADE

Nesta parábola, observamos que a consciência humana pode ser despertada e, ainda assim, continuar na impenitência3. Claramente, os judeus perceberam que esta parábola aplicava-se a eles. Entenderam que os servos de Deus, como os profetas, foram ignorados em suas exortações e profecias. Compreenderam que esta parábola afirma, categoricamente, que o filho do dono da vinha era o próprio Jesus. Acima de tudo, sabiam que estavam planejando o ato final e coroador de suas iniquidades, matar o próprio Filho amado e atirarem-no “para fora da vinha”, e, enfim, assumir o controle da propriedade. Mesmo compreendendo que a parábola aplicava-se a eles, não se arrependeram. Embora convencidos por suas próprias consciências, estavam endurecidos no pecado. Neste horrível fato, aprendemos que é perfeitamente possível alguém estar ciente de que está errado, ser incapaz de negar o fato, e, apesar disto, apegar-se aos seus pecados.

 

LONGANIMIDADE – DEUS É PACIENTE

A paciência é uma outra forma de Deus expressar a Sua bondade para com os homens. Veja o que diz a Escritura: “Ou desprezas a riqueza de Sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?” (Romanos 2:4) Mas, infelizmente, muito pouco se tem dito sobre essa faceta do caráter de Deus. Há muitas referências nas Escrituras sobre este aspecto encantador de nosso grande Deus! A Escritura diz que Deus é o “Deus de toda paciência”. Pode ser dito que a ‘paciência’ é uma das qualidades essenciais de Deus porque:

Paciência é o que Ele é. É uma de Suas perfeições, e Ele não é o que é sem a Sua paciência;

Deus é o autor da paciência da qual os homens são beneficiários;

Porque nisto Ele serve de modelo para nós . Quando nos sentimos desejosos de expressar a nossa ira contra alguém que nos feriu, lembremo-nos de Deus em Efésios 4:32-5.1. Sejamos pacientes!

Pink define paciência divina como “o poder de controle que Deus exerce sobre si mesmo, fazendo com que Ele próprio seja indulgente com o ímpio e que se detém por algum tempo em castigá-lo”4. Berkhof define a paciência de Deus ‘como aquele aspecto da Sua bondade, em virtude da qual Ele suporta o obstinado e o malvado apesar de sua persistente desobediência”. Esta paciência é revelada no adiamento do juízo merecido sobre o pecador5. Quando Deus é paciente, Ele está mostrando a Sua demora em revelar a Sua ira e a Sua indisposição de executar os Seus juízos sobre os homens ímpios. Deus não tem prazer na condenação do ímpio. Ele não se agrada na manifestação do Seu juízo. Esta é uma razão da Sua paciência. Deus Se obriga, por Sua própria natureza, a punir os pecadores, a derramar a Sua ira porque o pecado transgride a lei. A lei sendo violada exige a manifestação da justiça, e reclama a punição, mas a manifestação da justiça punitiva não traz deleite a Ele.

A lentidão de Deus em irar-se transcende infinitamente a paciência de qualquer dos seres criados. Nenhuma das criaturas, mesmo os anjos, poderia suportar por um só dia as iniquidades do mundo, ou mesmo somente as iniquidades do povo de Deus. Somente Deus pode suportar a enormidade da ofensa dos homens por causa do grandioso poder que Ele tem sobre Si mesmo. Deus tem um controle sobre Si que não podemos compreender, tão grande Ele é. Ele é paciente não somente com os pecados no mundo, mas com especialidade é paciente com os pecados dos crentes, que dizem amá-lO. A cada momento os homens provocam Deus com suas imaginações, palavras e atos: pecados de omissão, pecados de comissão, pecados da mente, pecados do corpo, pecados de ignorância, pecados voluntários. Isso diz respeito aos pecados de um dia. Você pode imaginar os pecados de 30, 40, 70, 80 anos? Quantas provocações! Quem pode computar todos os pecados de um só homem em sua vida? Quanto mais os pecados de todos os homens em todas as gerações!

Pode você imaginar somente os pecados desta nossa presente geração? Quantas afrontas à Palavra de Deus nos meios de comunicação! Quantos conselhos éticos errôneos são ministrados aos nossos filhos nas escolas e nas ruas! Quantas provocações ao Deus da verdade! Qual é a amostra disso na Escritura? Uma das cláusulas nesse texto é, a meu ver, a chave e a causa das outras: os homens são ‘aborrecidos de Deus’. Em outras palavras: eles são odiadores de Deus. Por que não são todos eles destruídos de uma vez? Porque todos eles não são lançados imediatamente na condenação? Porque Deus é paciente, longânimo e assaz benigno com eles.

 

CONCLUSÃO

A parábola dos lavradores maus tem seu contexto imediato relativo à nação de Israel. No entanto, não podemos nos distanciar desta parábola, pois ela reflete a condição caída do homem. Temos uma clara tendência à autonomia, acreditando que podemos resolver todas as nossas questões e problemas com nosso intelecto, razão ou força. Somos impulsionados, mesmo inconscientemente, a espancar os servos do dono ou matar o seu filho, quando desprezamos os ensinamentos bíblicos e não vivemos uma vida de oração, humildade e perdão. Oremos intensamente pedindo esta mudança. Não tenhamos descanso, enquanto não houvermos recebido. Sem ela, jamais seremos verdadeiros crentes e nunca chegaremos ao céu. Sem essa mudança, poderemos viver toda nossa vida como os judeus, reconhecendo interiormente que estamos errados e, ainda, à semelhança deles, perseveramos em nosso próprio caminho e morremos em nossos pecados.

 

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO EM CLASSE

1 - Qual o “pano de fundo” histórico da parábola dos lavradores maus?

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

2 - Tomando as devidas proporções, como podemos ser inseridos nesta parábola?

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

3 - Reflitam sobre essa frase: “A consciência humana pode ser despertada e, ainda assim, continuar na impenitência”.

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

4 - Como a religiosidade pode interferir em nossa reflexão sobre os nossos pecados?

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

5 - O que significa a longanimidade de Deus? Como esse atributo divino afeta nossa prática cristã?

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

1 CHEUNG, Vicent. Teologia Sistemática. Arte Editorial. São Paulo. 2005. P. 234.

2 SPUNGEON, C. H. Lições aos meus alunos. Editora PES. Vol. 1,p. 45.

3 RYLE, J C. Meditações no Evangelho de Marcos. Ed. Fiel. S. J. dos Campos. 2007, p. 149.

4 PINK, Arthur. Os atributos de Deus. Sheed Publicações, p. 76

5 BERKOF, L. Teologia Sistemática. Cultura Cristã, p. 145

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