O JAMA (Journal of the American Medical Association) é o periódico científico mantido pela Associação Médica Americana. Com um fator de impacto de 44,4 (um dos mais altos em Medicina e Ciência), é a revista médica de maior circulação no mundo, publicando pesquisas desde 1883.

Na edição de março de 1986 (v. 255, n. 11, p. 1455-1463), a revista publicou o artigo "On the Physical Death of Jesus Christ" (Sobre a Morte Física de Jesus Cristo). Com autoria de William D. Edwards, Wesley J. Gabel e Floyd E. Hosmer, e diversas ilustrações anatômicas, o artigo apresenta explicações de cunho médico/científico para a morte de Jesus Cristo. Apresento a seguir alguns tópicos que sintetizam o material, juntamente com alguns comentários.

1) A vida e os ensinamentos de Jesus de Nazaré influenciaram positivamente o mundo, incluindo o desenvolvimento da Medicina moderna (apesar de não mencionado no artigo, os próprios hospitais são uma das contribuições do Cristianismo). Assim, justifica-se um trabalho científico das circunstâncias relacionadas à Sua morte.

2) Sob o método de investigação científica histórico-legal, os Evangelhos apresentam-se como fontes confiáveis e acuradas sobre a vida de Jesus. Além deles, Jesus ou sua crucificação são mencionados em fontes antigas, como os historiadores romanos Cornélio Tácito, Suetônio e Plínio; pelos historiadores não-romanos Talo e Flegon; pelo satírico Luciano de Samosata; pelo Talmude judaico e pelo historiador judeu Flávio Josefo (para outras fontes, veja meu artigo "Jesus existiu? 31 fontes antigas que respondem 'Sim'!".

3) O artigo data a crucificação de Jesus em 14 de nisã (7 de abril) de 30 d.C. (acredito que seja a estimativa mais razoável, apesar de outras fontes datarem o evento entre os anos 31 e 33 d.C.).

4) Em Sua oração no Getsêmani, o evangelista Lucas relata que Jesus suou sangue (Lucas 22:44). Apesar ser um fenômeno raro, o suor de sangue (hematidrose) pode ocorrer em estados altamente emocionais ou em pessoas com distúrbios hemorrágicos. Como resultado, a pele torna-se mais frágil e sensível.

5) Jesus sofreu grande estresse emocional, abandono de Seus discípulos e espancamento após o julgamento judaico. No cenário de uma noite traumática e sem sono, Ele foi obrigado a caminhar mais de 4 Km entre os diferentes locais de julgamento (judaicos e romanos).

6) Entre a 1 hora da manhã e o raiar do dia, Jesus foi julgado perante Caifás e o Sinédrio (tribunal judaico), e condenado como culpado de blasfêmia. Pilatos não encontrou base para uma condenação legal de Jesus, mas atendeu às reivindicações da população e do Sinédrio, entregando Jesus para ser açoitado e crucificado. A crucificação era um dos mais desonrosos e cruéis métodos de execução, geralmente reservada apenas para escravos, estrangeiros, revolucionários e os criminosos mais vis.

7) Os guardas vendaram a Jesus, cuspiram nEle e lhe golpearam o rosto com seus punhos. O açoitamento era uma medida realizada em toda execução legal romana. O instrumento usual era um chicote curto, com várias tiras simples ou trançadas de couro de comprimentos variáveis, nas quais pequenas bolas de ferro ou peças afiadas de ossos de ovelhas eram amarradas em intervalos. As costas, nádegas e pernas eram açoitadas por dois soldados (lictores) ou por apenas um que alternava suas posições.

8) As bolas de ferro causavam profundas contusões e as correias de couro e ossos de ovelha cortavam a pele e os tecidos subcutâneos. Enquanto o açoitamento continuava, as lacerações rasgavam os músculos esqueléticos e produziam fitas trêmulas de carne sangrando. A extensão das perdas de sangue podia determinar quanto tempo a vítima sobreviveria na cruz. A flagelação antes da crucificação servia para enfraquecer o homem condenado e, se a perda de sangue fosse considerável, produziria hipotensão ortostática (queda excessiva da pressão arterial) e até choque hipovolêmico (fluxo sanguíneo inadequado generalizado pelo corpo).

9) Quando a vítima era jogada no chão de costas, em preparação para a transfixação das mãos, suas feridas muito provavelmente se abririam novamente e seriam contaminadas com sujeira. Como resultado, a perda de sangue pelas costas provavelmente continuaria durante a provação da crucificação.

10) Os soldados romanos, achando graça que aquele homem enfraquecido afirmara ser rei, começaram a ridicularizá-lo colocando um manto sobre os ombros, uma coroa de espinhos na cabeça e uma vara de madeira como um cetro na mão direita. A seguir, cuspiram em Jesus e lhe bateram na cabeça com a vara de madeira. Quando os soldados rasgaram o manto de Jesus de volta, eles provavelmente reabriram as feridas do açoitamento.

11) O abuso físico e mental causado pelos judeus e pelos romanos, bem como a falta de comida, água e sono, também contribuíram para Seu estado enfraquecido. Portanto, mesmo antes da crucificação real, a condição física de Jesus era no mínimo séria e possivelmente crítica.

12) O crucificado geralmente estava nu, a menos que isso fosse proibido pelos costumes locais. Ele tinha de carregar a haste horizontal da cruz, chamada patíbulo, a qual pesava de 34 a 57 Kg até o local de execução. Era colocada sobre a nuca da vítima e equilibrada pelos ombros. Normalmente, os braços estendidos eram amarradas ao patíbulo.

13) O criminoso era então jogado no chão, com os braços estendidos ao longo do patíbulo. As mãos podiam ser pregadas ou amarradas, mas aparentemente os pregos eram preferidos pelos romanos. Os pregos de ferro mediam de 13 a 18 cm de comprimento, com um eixo de 1 cm de diâmetro. Além disso, evidências documentaram que comumente os pregos atravessavam os pulsos em vez das palmas das mãos. A flexão dos joelhos pode ter sido bastante proeminente, e as pernas dobradas podem ter sido giradas lateralmente.

14) Não raro, os insetos entravam nas feridas abertas ou nos olhos, ouvidos e nariz da vítima agonizante e indefesa, e as aves de rapina rasgavam esses locais.

15) Os pregos de ferro provavelmente eram colocados entre o rádio e os carpais ou entre as duas fileiras de ossos do carpo. Embora um prego em qualquer local do pulso possa passar entre os elementos ósseos e, assim, não produzir fraturas, a probabilidade de lesão periosteal dolorosa parece grande. O prego esmagaria ou cortaria o nervo mediano sensório-motor, o que produziria dor excruciante em ambos os braços. É provável que o nervo fibular profundo e os ramos dos nervos plantares medial e lateral tenham sido lesionados pelos pregos.

16) O peso do corpo, puxando para baixo os braços estendidos e ombros, tenderia a fixar os músculos intercostais em um estado de inalação e, assim, atrapalhar a expiração passiva. A respiração não seria suficiente e logo resultaria em hipercarbia (aumento da concentração de gás carbônico no sangue arterial). O aparecimento de cãibras musculares ou contrações tetânicas, devido à fadiga e à hipercarbia, dificultaria ainda mais a respiração. Cristo falou sete vezes da cruz. Já que a fala ocorre durante exalação, essas declarações curtas e concisas devem ter sido particularmente difíceis e dolorosas.

17) A flexão dos cotovelos causaria rotação dos pulsos em torno dos pregos de ferro e causaria forte dor ao longo dos nervos medianos danificados.

18) Para confirmar a morte de Jesus, Seu lado foi perfurado com uma lança, do qual saiu sangue e água (João 19:34). Embora o lado da ferida não tenha sido designado por João, é tradicionalmente representado no lado direito. Apoiando essa tradição, está o fato de que um grande fluxo de sangue seria mais provável com uma perfuração do átrio ou ventrículo direito distendido e de paredes finas do que o ventrículo esquerdo de parede espessa e contraído. Portanto, a água provavelmente representou o líquido pleural e pericárdico seroso e teria precedido o fluxo de sangue e sido menor em volume que o sangue. Talvez no quadro de hipovolemia e insuficiência cardíaca aguda iminente, os derrames pleural e pericárdico possam ter se desenvolvido e teriam aumentado o volume de água aparente. O sangue, em contraste, pode ter se originado do átrio direito ou do ventrículo direito ou talvez de um hemopericárdio (acúmulo anormal de sangue no pericárdio).

19) A causa real da morte de Jesus, como a de outras vítimas crucificadas, pode ter sido multifatorial e está relacionada principalmente ao choque hipovolêmico, asfixia por exaustão e, talvez, insuficiência cardíaca aguda. Assim, permanece incerto se Jesus morreu de ruptura cardíaca ou de insuficiência cardiorrespiratória.

20) O artigo conclui com a seguinte declaração: "Claramente, o peso da evidência histórica e médica indica que Jesus estava morto antes que a ferida ao seu lado fosse infligida e apoia a visão tradicional de que a lança, empurrada entre as costelas direitas, provavelmente perfurou não apenas o pulmão direito, mas também o pericárdio e o coração e assim confirmou a Sua morte. Assim, interpretações baseadas na suposição de que Jesus não morreu na cruz parecem estar em desacordo com o conhecimento médico moderno.”

Esses dados históricos e médicos podem nos dar apenas uma pálida ideia do que Cristo sofreu na cruz. O sofrimento de Cristo não foi apenas físico, mas também espiritual, visto que Sua morte foi o meio de reconciliação da humanidade pecadora com o Deus santo. Nas palavras do profeta Isaías:

“Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.” (Isaías 53:5-6)

Isso só deve nos levar a amarmos ainda mais o nosso Salvador! "Pois vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver que lhes foi transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito." (1 Pedro 1:18-19)

Em segundo lugar, conforme a conclusão do artigo, não existe fundamento para antigas teorias racionalistas (especialmente de filósofos do Iluminismo) segundo as quais Cristo teria sobrevivido à crucificação. A certeza da morte de Cristo fortalece ainda mais a evidência histórica para a Sua ressurreição. Mas esse assunto fica para a próxima publicação.

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