Valorando os pecados e julgando o erro alheio

O mundo virtual que toma cada vez mais espaço no nosso tempo tem nos permitido conhecer uma face do ser humano que já existia antes do boom digital, mas que agora se revela de forma mais intensa e degradante: o julgamento. Temos a ligeira sensação de poder criticar o mundo todo utilizando apenas palavras superficiais, digitadas rapidamente no ardor das tão acaloradas discussões nas redes sociais. Enquanto criticamos e julgamos o(a) outro(a), tiramos o foco dos nossos erros e pecados, quase nos tornando invisíveis. Em meio a tudo isso, o Cristianismo que Jesus pregou se distancia de nosso meio a passos largos e nos perguntamos como mudar essa realidade.

Neste cenário percebemos o uso de máscaras que permitem aos(as) cristãos(as) sentirem-se menos pecadores(as), enquanto lançam olhares sobre os pecados revelados dos(as) outros(as). Tendemos a dimensionar as iniquidades, acreditando que existem algumas maiores e outras menores, quando o que acontece é que elas tem consequências diferentes e podem ou não virem a público. Inclusive cremos que os erros que são “revelados” são piores e mais vergonhosos. Na prática, não é porque nosso pecado não foi descoberto que isso o torna menor, ou menos terrível. Pelo contrário, pecado sempre é pecado e por sua vez, sempre nos afasta de Deus e nos corrompe. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus”. (Isaías 59:2) A questão é que quando descobrimos o que nossos(as) irmãos(as) fizeram e que manchou suas condutas, nos aproveitamos para externar nossa indignação, como se isso nos tornasse mais santos(as) e, por essa lógica, menos pecadores(as).

Os pecados mais “escandalosos”

Podemos pensar, assim, a questão do falso moralismo que tem reinado atualmente, e que se expressa de forma intensa nas redes sociais. Enquanto os(as) “cristãos”(as) criticam veementemente a prática da homossexualidade, como se este pecado fosse o mais imoral de todos, nos lares cristãos o adultério, a prostituição, o estupro e a lascívia tem tomado conta.

Sob esta lógica da hipocrisia, os mandamentos são moldados a gosto do freguês e tornam-se aliados do mundo. Por exemplo, a bíblia cobra de todos(as) a castidade até o casamento, mas, quando a prática deve existir, cada caso se torna um caso. O mandamento é claro, Deus espera que o sexo só aconteça dentro do casamento e/ou quando não há possibilidade de manter-se em celibato: “Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se(...)” (1 Coríntios 7:9), tendo constituído essa lógica desde a criação: "Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne" (Gênesis 2:24). Mas, corrompidos pela imoralidade mundana, no meio cristão convencionou-se que os meninos podem abster-se desse preceito, visto que é “preferível” que eles mostrem a sociedade que não tendem a pender para a homossexualidade e que sejam assim “garanhões”, bem másculos e varonis. A virilidade e até a masculinidade são assim, associadas à sexualidade. Afinal, quem nunca presenciou uma cena onde um jovem é satirizado por “amigos” por “ainda” manter-se virgem e não viver a sua puberdade a plenos pulmões? Já com relação à mulher, o contrário acontece, uma vez que a não virgindade é encarada como promiscuidade, talvez muito mais pelo medo que a família tem de “cair na boca do povo”, do que por conta dos mandamentos de Deus.

Por muito tempo a sexualidade da mulher foi controlada pela sociedade, pela igreja e até pela ciência, sendo que a honra dos homens estava associada a elas. Ainda hoje a igreja tem se prestado ao papel de controlar de forma enfática a vida e sexualidade da mulher e pouco se fala em relação ao homem. É quase como se existisse um Cristianismo para mulheres, e um para homens. Mas para Deus somos iguais e temos os mesmos deveres, que inclusive não se tornaram ultrapassados com o tempo. “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. (Gálatas 3:28)

Outro falso moralismo bem evidente em nossos dias é o que diz respeito aos costumes, as ações. Convencionou-se que certas práticas devem ser aceitas como normais e assim os mandamentos e preceitos de Deus estão se perdendo. Enquanto se julga o pecado alheio, se esquecem de olhar para o modo como se portam, as roupas que usam, as palavras que falam. Quando o(a) outro(a) faz, está errado, quando eu faço passa a ser correto. A moralidade é uma para cada situação. Parece escandaloso o batom vermelho nos lábios daquela mulher ou mesmo aquela minissaia, mas não é da mesma forma incomodo o corpo a mostra na praia ou piscina, afinal, “o ambiente nos obriga”, é o que dizem. Mas um corpo a mostra é sempre um corpo a mostra, indiferente do tecido da roupa que usamos, sendo ela um biquíni ou uma peça íntima.

Quanto a vida, se compadecem muito pelo feto abortado, mas defendem a pena de morte para os criminosos que não devem ter uma segunda chance. Assim, a vida já não tem o mesmo valor para todos, mas é definida de acordo com cada situação e pessoa. É como a lei que se aplica a alguns grupos, mas não a outros.

Não parece tão horrível o fato de que nas nossas igrejas poucas pessoas tem se casado seguindo os desígnios divinos, mas tem apenas passado a viver juntos, experimentando uma vida sexual anterior ao casamento, e o pior, sem que isso gere horror em nossa cristandade. As meninas engravidam sem estarem casadas e o casal recebe aplausos. Não há mais preocupação com isso? Com os modelos estabelecidos por Deus?

Vamos a lugares que não condizem com uma conduta cristã, falamos palavrões como se isso nos tornasse mais descolados(as), mostramos nosso corpo sem nos importarmos com a moral cristã, fazemos comentários maldosos sobre os(as) outros(as), mas sempre o pecado do(a) outro(a) é que nos chama a atenção. Sejamos coerentes. Usemos um mesmo peso e uma mesma medida. Condenarmos algumas práticas e aceitarmos outras de igual dimensão, além de soar contraditório e nos conduzir ao descrédito com as pessoas, certamente nos levará a essa vida de julgar e não enxergar os erros em nós mesmos(as)

Quando ouvimos a palavra integridade logo pensamos em uma pessoa de caráter inquestionável, que tenha uma conduta justa e correta. No meio cristão a lógica é ainda mais severa e exige de nós uma vida de entrega total aos princípios morais de Deus, que parecem ter caído em desuso dentro das igrejas cristãs atuais. Em meio a tanta busca por autossatisfação, interesses e por bênçãos materiais, pouco se fala sobre a moralidade que Deus exige de nós e que vai na contramão do que o mundo tem buscado. Como pode então o homem e a mulher cristãos manterem-se íntegros(as) em um mundo onde as pessoas não querem enxergar seus próprios erros? Vejamos.

Os tribunais da hipocrisia

Na Idade Média e Moderna o julgamento daqueles(as) considerados(as) infiéis  alcançou o mundo através da Inquisição. Este tribunal tinha como objetivo julgar e condenar as pessoas tidas como culpadas por crimes como heresia, bruxaria, sodomia e tantas outras práticas consideradas imorais e perigosas pela Igreja. Como se não bastasse condenar religiosos(as) e não-religiosos(as) por suas atitudes pecaminosas, a Igreja separava um momento especial ao fim do julgamento para que o povo pudesse acompanhar o cumprimento das penas, que podiam ir de punições seculares à morte na fogueira. O “espetáculo” acontecia nos autos-de-fé, onde as pessoas não envolvidas no “crime” poderiam ir e constatar com seus próprios olhos a sentença sendo executada.

Os autos-de-fé tinham caráter exemplar, para que os(as) “fiéis” pudessem ver claramente o destino dos(as) pecadores(as) não arrependidos(as). Muitos(as) podiam sentir-se felizes por não estarem no lugar do(a) condenado(a), por não ouvirem palavras de maldizer e escárnio, por não sofrer a humilhação e as dores físicas. Muitos(as) poderiam ali estar com a sensação de prazer ao ver o mal “sendo combatido”. Enquanto o, até então, irmão de fé queimava, o sentimento de “bem-feito” tomava o coração de muitos que certamente tinham uma vida passível de receber a mesma punição, mas que por algum motivo não tinham sido descobertos ou denunciados. Sim, porque uma das etapas da Inquisição constituía-se como a Denúncia, quando pessoas comuns podiam chegar até os inquisidores que iriam atuar no Tribunal, e denunciar seus(suas) companheiros(as)  e inimigos(as), como lhes aprouvessem.

Por que trago esse exemplo aqui? Penso que vivemos em nossos dias a Inquisição da Hipocrisia, onde muitos(as) dos(as) que se intitulam cristãos(as) assistem diariamente o(a) outro(a) ser apontado(a) e condenado(a) por seus pecados, agindo quase que na surdina, com uma espécie de prazer repulsivo, sentindo-se feliz por saber que finalmente o(a) outro(a) foi descoberto(a), enquanto que seus próprios erros e pecados são por eles(as) mesmos(as) escondidos ou ignorados. Enquanto se aponta o dedo para o outro, a sua própria vida sai do foco.

A palavra de Deus nos diz que não devemos julgar aos outros, porque devemos nos colocar no lugar deles e tentar sentir o mesmo que sentiram. “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós”. (Mateus 7 1,2) Não é porque eu não cometi certo erro que eu não seja capaz de cometê-lo. Ficamos horrorizados com certas condutas e atitudes, mas não temos a percepção de que todos(a) somos humanos(as) e passíveis de erro. “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. (Romanos 3:23) E mesmo que em sua vida toda você não chegue a cair no mesmo erro daquele seu irmão de fé, possivelmente seus pecados serão igualmente terríveis, e talvez com consequências mais severas. Você precisará da graça divina tanto quanto aquele que tão ferozmente você julgou.

Os judeus, na ânsia de provarem aos demais povos o quanto eles eram corretos na guarda dos mandamentos, acabaram se perdendo em meio a leis, rituais e muita, muita religiosidade. A todo o tempo eles estavam tentando mostrar o quando eles obedeciam às normas, muitas das quais eles mesmos estabeleceram, e não conseguiram enxergar o Messias bem ali na frente deles. Duas questões nos saltam aos olhos: ou esses judeus agiam com hipocrisia, bradando aos quatro ventos seus feitos e na prática não seguiam tão radicalmente os preceitos judeus, ou o faziam pelo motivo errado. Se cumprimos os mandamentos apenas para poder esfregar na cara dos(as) demais cristãos(as) o quanto somos “bons”(as) por conseguir o fazer, o desígnio de nosso coração já revela que nossa intenção é má, e por isso, inválida.

Você já pensou em inverter os papéis e imaginar, apenas imaginar o caso que tanto te incomoda sendo você o protagonista? Aquele adúltero, aquela prostituta, aquele ladrão, aquela mentirosa, aquele viciado em drogas, aquela alcoólatra, aquele homossexual. E se fosse você, você não gostaria da compaixão dos(as) outros(as)?  Colocar-se no lugar do(a) outro(a) é o primeiro elemento que julgo necessário para vivermos o Cristianismo que Jesus pregou e que nos conduzirá a tão almejada vida íntegra, onde não há espaço para a desonestidade, a mentira, a maldade e onde alcançamos uma conduta irrepreensível. Uma vez que conseguirmos minimizar os efeitos do julgamento nas nossas vidas, poderemos observar mais atentamente nossos próprios pecados e combatê-los. Do contrário, vamos ficar a vida toda agindo com hipocrisia, condenando a todos(as) quanto julgamos errados(as) e perdendo a nossa chance de alcançarmos a misericórdia de Deus.

A integridade que Deus espera de nós

Feito isso, é preciso que falemos de nossas ações. Como age o(a) cristão(ã) íntegro(a)?  Já vimos que ele(a) não se preocupa em perder tempo perseguindo aos(as) demais e os(as) atormentando com o peso de seu julgamento. Esse já é um bom começo. Mas podemos ir além. Observar em nós se aqueles pecados que tanto incomodam o meio cristão não estão presentes em nossas vidas, se faz urgente.

Postos na balança, a homossexualidade parece estar gerando mais alvoroço do que o adultério, por exemplo. Para Deus, porém, sabemos que ambos têm o mesmo peso e medida. Por que é que isso incomoda tanto nossa sociedade atual então? Do mesmo modo não a incomodam as propagandas da tv, onde as mulheres aparecem quase nuas, sendo coisificadas; as novelas e filmes onde cenas de sexo(ou que insinuam) aparecem a todo o tempo; a liberdade sexual que os homens têm em nossa sociedade; o abandono do lar por parte dos homens e mulheres; o fato de os filhos homens irem para a “balada” e voltarem bêbados; a infidelidade masculina que é vista como sinônimo de macheza, e a feminina que representa lascívia; os inúmeros casos de violência contra a mulher e de abuso sexual, infantil e adulto, feminino e masculino. Podemos ir além: as mortes em guerras e por conta de doenças, os casos de corrupção, enfim, nada gera tanto impacto quanto essa questão da homossexualidade. É hora de pensarmos o que se esconde por detrás dessa constante briga, e considerarmos se de fato é a homossexualidade, sozinha, que tem destruído os valores da família cristã. Será? Nós, membros das famílias “cristãs” não temos nenhuma responsabilidade nisso?

Por fim, quais outras características fazem parte de um viver íntegro? Pense em tudo o que você faz cotidianamente, em sua moralidade, em sua sexualidade, em como vê o mundo. Aqui poderíamos ficar elencando inúmeras atitudes que contradizem a bíblia, mas creio que as acima citadas já nos permitem pensar nossas vidas e observar a partir de agora nossa postura frente ao mundo. Cabe a cada um(a) de nós auto analisar-se e, à luz da bíblia, questionar nossa conduta. É preciso pensar sobre o que é ser íntegro na prática, e buscar chegar o mais perto possível desse ideal.

Reflexões finais

Acredito veementemente do poder das palavras, das ideias, das reflexões, e no quanto elas podem causar transformações em nós.  Creio que hoje, depois de tudo o que você leu aqui, você está sendo convidado(a) a refletir sobre sua vida. Permita-se ampliar seu horizonte de perspectivas e pense com carinho em tudo o que foi debatido, não como uma nova verdade a ser incorporada em sua vida, longe disso; mas pense nesse texto como uma discussão que pode desencadear dentro de você uma série de novas reflexões que podem te aproximar ainda mais da integridade cristã que devemos almejar todos os dias. Se começarmos buscando não julgar o pecado alheio, nos colocando assim no lugar dos(as) outros(as) como Jesus ensinou em Lucas 6:31 analisando cotidianamente nossas ações e lançando fora o falso moralismo que nos impede de ver nossos erros e a hipocrisia que não nos permite reconhecer nossas falhas, incorporando a moralidade de Deus, expressa na Bíblia, já estaremos dando um passo rumo a essa vida de integridade, que por certo nos levará para mais perto de Deus.

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